Consequências do desmatamento da Amazônia
Muito tem sido discutido a respeito do desmatamento da Amazônia, no entanto a quantidade de informações sem fundamento propagadas na mídia é algo extremamente prejudicial ao debate de um assunto tão relevante para o país. Embora o sensacionalismo e o viés ideológico acalorem tal debate, a realidade é que uma análise das discussões científicas no âmbito internacional evidencia um contexto ainda mais interessante e perturbador.
As principais análises das consequências do desmatamento da Amazônia se baseiam em modelos climáticos dinâmicos. Tais modelos são fundamentados no princípio de que a Amazônia acopla a atmosfera e a superfície da Terra [1], e consideram a influência das monções mais importantes no transporte de umidade ao longo do ano, ilustradas na figura abaixo.
Figura 1- Fluxos principais na estação de monções que ocorrem de Dezembro a Fevereiro [2].

A análise das monções apresentadas acima evidencia que, depois de cruzar a bacia amazônica, esses ventos úmidos de baixa altitude são bloqueados pela cordilheira dos Andes ao Oeste e canalizados para o sul, formando um jato de baixo nível da bacia amazônica ocidental até os subtrópicos, para os quais são a fonte de umidade mais importante [2].
Isso propicia
condições para uma característica importante do papel climático da Amazônia,
que apresenta profundas implicações quando são analisadas as consequências do
desmatamento, que é a existência de feedbacks entre alterações da cobertura
florestal e umidade. Em um estudo publicado em 2016 pelo Dr. Niklas Boers, pesquisador do renomado Instituto Potsdam de Pesquisas sobre o Impacto Climático [2], da Alemanha, identificou a existência de um ponto de
inflexão em seu modelo climático, o que corresponde à um nível de perda de cobertura
florestal a partir do qual ocorrem reduções de até 40% na precipitação em
partes não desmatadas da Amazônia Ocidental e regiões a jusante. Na figura abaixo é
apresentada uma ilustração de um dos mecanismos que condicionam esse resultado.
Figura 2- Representação esquemática do efeito cascata no sistema
vegetação-chuva [3].

Na Figura 2a, o sistema vegetação-atmosfera está em equilíbrio. Na Figura 2b é ilustrado um contexto de perda inicial da floresta, que resulta, na ilustração, de uma diminuição no influxo de umidade oceânica, mas pode também ser ocasionada pelo desmatamento. Isso reduz a evapotranspiração local e, consequentemente, o transporte de umidade. Como resultado, o regime de chuvas é alterado em outro local, levando a uma maior perda de floresta e à redução do transporte de umidade para outras regiões (Figura 2c).
Uma consequência associada a esse tipo de processo é a savanização da floresta. A savanização pode ser definida como uma mudança ambiental na América do Sul tropical que levaria a mudanças no clima regional por causa da mudança da cobertura do solo ou do aquecimento global, aumentando o comprimento da estação seca e transformando o clima regional no envoltório climático típico das savanas [4]. Trata-se, portanto, de um processo de mudanças climáticas regionais e não de um processo ecológico de substituição florestal.
A savanização é um processo preocupante porque propicia condições para que ocorram queimadas mais intensas, o que resulta em uma sinergia entre incêndios e gramíneas C4 (invasoras), em uma dinâmica que apresenta o potencial de comprometer o futuro das florestas tropicais [5].
Embora pareça que se trata de uma possibilidade ainda distante, alguns autores defendem que o desmatamento da Amazônia está bastante próximo de um limiar irreversível. Em um editorial na revista Science Advance, no dia 21 de Fevereiro de 2018, Thomas E. Lovejoy e Carlos Nobre publicaram uma nota [6] alertando que, nos primeiros modelos que analisavam o limiar irreversível de desmatamento da Floresta Amazônica, estimava-se que o ponto de inflexão se daria com um desmatamento de 40% da área da floresta. No entanto, as mudanças climáticas e o uso indiscriminado do fogo por pecuaristas começaram a impactar no ciclo hidrológico da Amazônia, em uma combinação que sugere um novo ponto de inflexão situado entre 20% e 25% de desmatamento [7].
Mesmo que, na melhor das hipóteses, esse ponto irreversível estivesse distante da realidade atual, as consequências do desmatamento continuam sendo graves. A erosão do solo, o empobrecimento nutricional, a compactação, e a emissão de gases do efeito estufa são alguns dos impactos mais óbvios [8]. Outro impacto relevante porém de mais difícil mensuração é perda de opções para o manejo florestal sustentável da madeira e de recursos genéticos e farmacológicos [8].
O que se conclui, analisando-se o estado da arte na literatura científica sobre o desmatamento da Amazônia, é que uma estratégia adequada de manejo é essencial, e seria irracional ignorar os prejuízos efetivos e potenciais do desmatamento. Nesse contexto, nenhuma das ciências, isoladamente, é capaz de subsidiar de forma satisfatória a tomada de decisão. O caminho mais seguro é o planejamento político por meio de análises sistêmicas, articulando-se instrumentos da climatologia, da ecologia, da economia e da sociologia, de forma a gerenciar da forma mais adequada possível esse recurso único no planeta. É importante, no entanto, se ater ao fato de que a maximização da utilidade de um recurso é um desafio que inclui a dimensão temporal, e o manejo de um sistema extremamente complexo como a Floresta Amazônica pode ter consequências imprevisíveis e permanentes sobre a população brasileira.
Referências
[1]AHLSTRÖM, A. et al. Hydrologic resilience and Amazon productivity. Nature Communications, p. 1-9, 2000.
[2]BOERS, N. et al. OPEN A deforestation-induced tipping point for the South American monsoon system. Nature Publishing Group, n. August 2016, p. 1-9, 2017.
[3]ZEMP, D. C. et al. Deforestation effects on Amazon forest resilience. Geophysical Research Letters, v. 44, n. 12, p. 6182-6190, 2017.
[4]NOBRE, Carlos Afonso; BORMA, Laura De Simone. 'Tipping points' for the Amazon forest. Current Opinion in Environmental Sustainability, v. 1, n. 1, p. 28-36, 2009.
[5]SILVÉRIO, Divino V. et al. Testing the Amazon savannization hypothesis: fire effects on invasion of a neotropical forest by native cerrado and exotic pasture grasses. Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, v. 368, n. 1619, p. 20120427, 2013.
[6]LOVEJOY, THOMAS
E.; NOBRE, C. Amazon Tipping Point. v. 0, n. February, p. 1-2, 2018.
[7]NOBRE, Carlos A. et al. Land-use and climate change risks in the Amazon and the need of a novel sustainable development paradigm. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 113, n. 39, p. 10759-10768, 2016.
[8]FEARNSIDE, Philip M. Deforestation in Brazilian Amazonia: history, rates, and consequences. Conservation biology, v. 19, n. 3, p. 680-688, 2005.

